Perdido no labirinto da poluição
da mente
Não tenho tempo para as musas
Também eu
As deixo no limbo de Torga
Saltitando nos tojais
Insinuando-se nas giestas
Nuas, leves, lindas
Espreito-as às vezes
Na necessidade de preencher
O meu coração vazio
Como às vezes
Abro a gaveta onde
Encerro as minhas paixões erróneas
Sinto a paz enfim
Esteve sempre tão perto de mim
Ao alcance de uma tecla
Um enclave perdido
Que agora alcanço
Na paz e solidão
Da terra ardente
No segredo
Hermético da escrita
Secreta
Tão lindo o casal de namorados
Ele um drogado os dois infectados
Conheceram-se num bairro degradado
Num ermo à sombra de um penedo
Ele inconsciente vomitado
Ela com o vestido rasgado
Drogaram-se abandonados
Com cavalos adulterados
Pediram esmola roubaram
Fujiram quase mataram
Tão lindo o casal de namorados
Amaram-se naquele instante
Num qualquer bosque distante
Não por sentimentos desejados
Mas pelo prazer dependente
Nuns carros abandonados
Tão lindo o casal de namorados
Conceberam em droga um filho não desejado
Um lindo menino de droga um acaso o destino violado
Tão lindo é o menino tão alvo e tão franzino
Um lindo menino infectado com o destino traçado
Na vertigem da estrada sigo veloz
Sinto o torpor dos membros
A embriaguez dos olhos
As mazelas dum mal atroz
Na noite que cobre escura
O betume negro da morte
Sinto o ar gélido cortante
A solidão daquela hora
Infinito o tempo que voa
Fujo fugaz pelas luzes devassado
Surdo no silêncio que ecoa
Morro em medo
Perdido lânguido
Num caminho abandonado
Sentado no portado
Da minha terra
Alva, pura
Sou feliz
hoje
O puro malte inebriou
As mágoas desconhecidas do fazedor de pão
Em espanto o povo descobriu
Sem qualquer razão ou compaixão
Um sofrimento
Um tormento
Um atrevimento
Afinal também pode ser feliz
Quem apenas faz e nada diz
amanhã
Deitado no sepulcro
Na minha morte
Negra, suja
Descubro que pouco disse
E nada fiz
Escrevo apenas emoções
Fluídas
Como um rio que ao mar
Vai diluir a morte
Encadeada nos segredos dos pensamentos
Ter prazer, saciar-me
Na beleza da criação emotiva
(...)
Um rio não sabe o seu destino
Flui na inércia
Da multidão
Os átomos
Caminham em rebanhos
Nada interessa
Apenas seguir o caminho
Encontrar o fim
E continuar
A terra escorre
No intervalo dos dedos magros
Acolhe, recolhe, tolhe
A aridez argilosa
Da frigidez
Que se escapa
Incólume
No seio materno improvisado
As tuas pernas
Deixam espaço entre coxas
Túnel, mel
Pudera eu beijá-las
Rolar, roçar
Num qualquer chão
De pó
Unir-me a ti
Levantar a poeira
Quebrar a armadura
Ressequida, castradora
Nada mais me interessa
Só o amor e a mente
Contraditórios
Escravos subjugados
Num fiel viciado
Nada mais me move
Só a paixão e a razão
Distantes
Tolhidos na aniquilação mútua
Pudesse sempre ser criança
Olhar-te na esperança
De uma vida interrompida
Ver-te através das nuvens
Ver-te minha linda
Como sempre te vi
Sem amor culpado
Tão só a carícia e o beijo
O mútuo desejo
Pobre máquina subtil
Televisão, portátil
Mero adereço de forma
Asfixia-me no estio doentio
Dum Verão
Lânguido, libidinoso
… Mais um…
Perco-me
Se perdido já não estou
Vicio-me
Como se viciado já não estivesse
… Morro …
Preso, perdido
Num qualquer pop-up
Porque desespero
Porque não apareces
Porque não desapareço
Porque não te desligo
Se me consumo
Horas a fio
Ligado, perdido
Numa rede sem fio
Onde só um fio se move