Feb 27, 2011

LIBINHA

A absinta luz dos teus olhos guia-me no mar tempestuoso
Encontro o abrigo nos teus lábios húmidos
Na dulcíssima língua que me sacia o desejo

A vertigem do abismo atrai-me
Tem o perfume dos teus cabelos
O infinito da curva do teu pescoço

Feb 5, 2011

METAMORFOSE

Procuro o impossível nas asas de uma borboleta

Vivo num casulo de seda
Na transparência infinita
Do azul imenso do medo

Verde, azul, mais azul

Procuro o pó de estrelas das tuas asas

Um torpor ecoa
No ruído imenso
Que atordoa

Verde, azul, mais azul

Procuro a cor da transparência do teu desejo

Feb 4, 2011

QUERO APENAS O TEU OLHAR


Vivo o frémito de uma pestana

O vislumbre de uma perna
Provoca-me o suplício que emana
O perfume da tua pele

Não quero madrugadas esquecidas

Quero apenas pele e beijos
Quero tão só uma pestana
Quero apenas o teu olhar

Feb 2, 2011

MOMENTO ETERNO


Tão perto o teu cabelo
O teu perfume doce

Um instante de dor e amor

Tão longe o teu ser
O teu querer

Estar contigo sempre
Num momento eterno
Nas madrugadas das insónias
Na loucura do desejo

Estar contigo só
No tumulto das multidões
No rugido das emoções

Estar contigo
Só estar contigo

May 24, 2006

LUCIDEZ


No nono mês

Numa paragem
Numa garagem
Numa margem

Luz se fez

Numa vertigem
Numa coragem
Numa voragem

Lucidez

Liberdade, Utopia, Crença
Inteligência, Destreza, Esperança

Zarpei num sonho em Dezembro

Nov 18, 2003

Tríptico da Alma


Um porto, o mar, as nuvens

O meu corpo está preso
Numa amarra
Onde a alma se protege
Do mar revolto

Raras vezes
Mergulho nas águas geladas
Que não amo
Mas que me envolvem
Numa lasciva
Que me atordoa
Os sentidos

Enquanto isso
Olho as nuvens
Que nunca tocarei
Belas, leves
Sem mácula, sem pecado

Oct 31, 2003

No beijo da mulher amante


Na teia dos teus dedos finos
Um amor de cólera
Leva-me a procurar a tua boca

O teu seio farto

No beijo da mulher amante
Sinto um doce vazio

As memórias de outra era

Um tempo perdido

Nada

Oct 27, 2003

Palavra dor


Basta um telefonema, uma lembrança
O doce murmúrio da tua voz
Um carinho, uma esperança
Basta tão só um momento a sós

E logo o muro cai despedaçado
Os vidros estilhaçados. O amor volta
Revoltado, angustiado, de novo perdido
Na confusão da dor e da paixão aflita

Porque é tão difícil definir-te palavra
Carinho? Porque te confundes
No desejo do sentimento carnal? Compreendes

Que te quero, que desejo ter a palavra
Certa que te diga o que por ti sinto?
Essa palavra não existe... minto.

Oct 16, 2003

Não tenho tempo para as musas


Perdido no labirinto da poluição
da mente
Não tenho tempo para as musas
Também eu
As deixo no limbo de Torga
Saltitando nos tojais
Insinuando-se nas giestas

Nuas, leves, lindas

Espreito-as às vezes
Na necessidade de preencher
O meu coração vazio
Como às vezes
Abro a gaveta onde
Encerro as minhas paixões erróneas

Falsas, intensas, inúteis

Que agora andam calmas
Estranhamente calmas

Como mortas

Oct 8, 2003

Reliquatos


Voltam as cicatrizes como punhais afiados
Reliquatos acumulados no sofrimento
da vida

Voltam sem aviso, no tormento
dos dias passados, na lembrança
dos erros insuportáveis.
Estado de escrita


plágio da Obra poética IV de Sophia de Mello Breyner Andressen


Aconteceu-me um poema
Apareceu feito, dado
Como um ditado que escuto e noto

No subconsciente de uma musa
Na película de um filme
Ouvi um poema todo
Numa obstinada paixão por ser e aparecer

Oct 3, 2003

Na insensatez dos dias inquietos


Na insensatez dos dias inquietos
Prossigo
Alienado na narcolépsia das noites mal dormidas


A obcessão cíclica
No desejo do teu corpo
Acalmou

Flutuo agora
Numa planície de logro


No porvir dos dias medonhos
Recidivo
Preso no destino das paixões compulsivas

Sep 30, 2003

Viver e morrer


Viver não é isto
Um misto de mosto
E mar morto

Viver é voar
Velar a vida
E morrer

Sep 28, 2003

Poema asséptico


Eu vou comprar um ramo de flores
Para escrever um poema morto

Talvez uma dúzia de rosas
Ou quem sabe
Um ramo de mimosas
Um lindo bouquet de cravos

Não!

Um arranjo de margaridas
São as tuas preferidas

Eu vou comprar uma jóia
Para escrever versos caros

Talvez uns brincos de prata
Ou quem sabe
Um anel de ametista
Um lindo par de brincos

Sim!

Um par de brincos lindo
De oiro e de corindo

Sep 14, 2003

Escrevo o medo

Escrevo o medo
No receio de ser preso
Na patologia decadente do verso

Escrevo o medo
No receio da insanidade
Trespassar a alma aberta

Escrevo o medo
No receio de mostrar
O sentimento oculto

Escrevo o medo
No receio de querer
Revelar o que não existe

Não ser puro

Ser apenas muro

Sep 13, 2003

A paz enfim

Sinto a paz enfim
Esteve sempre tão perto de mim
Ao alcance de uma tecla
Um enclave perdido
Que agora alcanço
Na paz e solidão
Da terra ardente
No segredo
Hermético da escrita
Secreta

Sep 5, 2003

Quase

Imagino o teu seio pequeno
Lembro-me do toque da pele das tuas pernas
Uma vez toquei-te nas costas
Senti o teu cabelo perfumado

Lembro-me bem do teu perfume
Do dia em que quase nos beijámos
Embriagados

Sep 2, 2003

Além


Solidão imensa da planície
Porque me deixas tão vago e triste?
Na tua imensidão não viste
Que me torno decadente espécie?

Restolho seco, pedra ardente
Porque me tolhes de mágoa a alma
Porque sequioso na eterna calma
Sorveste o meu amor distante

Perco-me no teu doce regato
Na tua represa de água serena
Afogo-me de lágrimas no teu regaço
No desejo da tua pele morena

Aug 28, 2003

Tão lindo o casal de namorados

Tão lindo o casal de namorados
Ele um drogado os dois infectados
Conheceram-se num bairro degradado
Num ermo à sombra de um penedo
Ele inconsciente vomitado
Ela com o vestido rasgado
Drogaram-se abandonados
Com cavalos adulterados
Pediram esmola roubaram
Fujiram quase mataram

Tão lindo o casal de namorados
Amaram-se naquele instante
Num qualquer bosque distante
Não por sentimentos desejados
Mas pelo prazer dependente
Nuns carros abandonados

Tão lindo o casal de namorados
Conceberam em droga um filho não desejado
Um lindo menino de droga um acaso o destino violado
Tão lindo é o menino tão alvo e tão franzino
Um lindo menino infectado com o destino traçado

Aug 26, 2003

Hoje Sonhei Contigo

Hoje sonhei contigo

Tu estavas num canto

Bem distante eu
Ria, bebia, chorava

Quando a festa acabou
Embriagado, caminhei alegre
Levado pelo meu arcanjo

Era um jardim
Enorme, cercado

Acordei, virei-me no leito
E senti os teus braços
Dizerem-me és meu
Muro do meu jardim


Na vertigem da estrada sigo veloz
Sinto o torpor dos membros
A embriaguez dos olhos
As mazelas dum mal atroz
Na noite que cobre escura
O betume negro da morte
Sinto o ar gélido cortante
A solidão daquela hora
Infinito o tempo que voa
Fujo fugaz pelas luzes devassado
Surdo no silêncio que ecoa
Morro em medo
Perdido lânguido
Num caminho abandonado

Aug 25, 2003

A Sombra

A sombra
Semblante aberto
Mostra ao sol
Um fruto narciso
A mesquinhez humana

Albritsh, Werther; Nietsh

Enfim eu
Estoicismo?

Recidivo no suicídio
Estóico

Encarcero a paixão
Enquanto definho
Num ninho
De amor

Traição?
Não
Apenas dor

Aug 24, 2003

O Padeiro

ontem

Sentado no portado
Da minha terra
Alva, pura
Sou feliz

hoje

O puro malte inebriou
As mágoas desconhecidas do fazedor de pão
Em espanto o povo descobriu
Sem qualquer razão ou compaixão
Um sofrimento
Um tormento
Um atrevimento
Afinal também pode ser feliz
Quem apenas faz e nada diz

amanhã

Deitado no sepulcro
Na minha morte
Negra, suja
Descubro que pouco disse
E nada fiz

Aug 23, 2003

Livro das Emoções

Poema Único


Início

Escrevo apenas emoções
Fluídas
Como um rio que ao mar
Vai diluir a morte
Encadeada nos segredos dos pensamentos
Ter prazer, saciar-me
Na beleza da criação emotiva

(...)

Um rio não sabe o seu destino

Flui na inércia
Da multidão
Os átomos
Caminham em rebanhos
Nada interessa
Apenas seguir o caminho
Encontrar o fim
E continuar

Aug 22, 2003

Terra

A terra escorre
No intervalo dos dedos magros
Acolhe, recolhe, tolhe
A aridez argilosa
Da frigidez
Que se escapa
Incólume
No seio materno improvisado

As tuas pernas
Deixam espaço entre coxas
Túnel, mel
Pudera eu beijá-las
Rolar, roçar
Num qualquer chão
De pó
Unir-me a ti
Levantar a poeira
Quebrar a armadura
Ressequida, castradora

Aug 21, 2003

Contraditórios

Nada mais me interessa
Só o amor e a mente
Contraditórios
Escravos subjugados
Num fiel viciado
Nada mais me move
Só a paixão e a razão
Distantes
Tolhidos na aniquilação mútua

Aug 20, 2003

Intermezzo

Não te consigo escrever
Poema final

Escrevo meios poemas
Dilemas
Meias palavras

Escrevo meias verdades
Saudades
Tantas mentiras
Sísifo feliz?

A insónia
Persegue-me, tolda-me
Apodera-se do meu viver
Preso na teia da paixão

O torpor
Instala-se, vicioso
Ciclo decadente
Derrocada d’alma
Fim premente

Aug 19, 2003

NEFILOSCÓPIO

Pudesse sempre ser criança
Olhar-te na esperança
De uma vida interrompida
Ver-te através das nuvens
Ver-te minha linda
Como sempre te vi
Sem amor culpado
Tão só a carícia e o beijo
O mútuo desejo

Aug 18, 2003

Musana

Ninfeta
Jovem eterna
Musana