Musana

Poemas

Wednesday, May 24, 2006

LUCIDEZ


No nono mês

Numa paragem
Numa garagem
Numa margem

Luz se fez

Numa vertigem
Numa coragem
Numa voragem

Lucidez

Liberdade, Utopia, Crença
Inteligência, Destreza, Esperança

Zarpei num sonho em Dezembro

Tuesday, November 18, 2003

Tríptico da Alma


Um porto, o mar, as nuvens

O meu corpo está preso
Numa amarra
Onde a alma se protege
Do mar revolto

Raras vezes
Mergulho nas águas geladas
Que não amo
Mas que me envolvem
Numa lasciva
Que me atordoa
Os sentidos

Enquanto isso
Olho as nuvens
Que nunca tocarei
Belas, leves
Sem mácula, sem pecado

Tuesday, November 04, 2003

Parto


A mulher rasga-se
Esvai-se em sangue
Consome-se em dor e sofrimento

A criança nasce
Envolta em sangue
Sente a dor e o sofrimento

Friday, October 31, 2003

No beijo da mulher amante


Na teia dos teus dedos finos
Um amor de cólera
Leva-me a procurar a tua boca

O teu seio farto

No beijo da mulher amante
Sinto um doce vazio

As memórias de outra era

Um tempo perdido

Nada

Monday, October 27, 2003

Palavra dor


Basta um telefonema, uma lembrança
O doce murmúrio da tua voz
Um carinho, uma esperança
Basta tão só um momento a sós

E logo o muro cai despedaçado
Os vidros estilhaçados. O amor volta
Revoltado, angustiado, de novo perdido
Na confusão da dor e da paixão aflita

Porque é tão difícil definir-te palavra
Carinho? Porque te confundes
No desejo do sentimento carnal? Compreendes

Que te quero, que desejo ter a palavra
Certa que te diga o que por ti sinto?
Essa palavra não existe... minto.

Thursday, October 16, 2003

Não tenho tempo para as musas


Perdido no labirinto da poluição
da mente
Não tenho tempo para as musas
Também eu
As deixo no limbo de Torga
Saltitando nos tojais
Insinuando-se nas giestas

Nuas, leves, lindas

Espreito-as às vezes
Na necessidade de preencher
O meu coração vazio
Como às vezes
Abro a gaveta onde
Encerro as minhas paixões erróneas

Falsas, intensas, inúteis

Que agora andam calmas
Estranhamente calmas

Como mortas

Wednesday, October 08, 2003

Projecção


Houvera inveja falsa
E teria ainda uma réstia de esperança

Houvera ódio falso
E talvez ainda encontrasse o caminho

Falsas contradições
Projecções de inveja e ódio
Reliquatos


Voltam as cicatrizes como punhais afiados
Reliquatos acumulados no sofrimento
da vida

Voltam sem aviso, no tormento
dos dias passados, na lembrança
dos erros insuportáveis.
Estado de escrita


plágio da Obra poética IV de Sophia de Mello Breyner Andressen


Aconteceu-me um poema
Apareceu feito, dado
Como um ditado que escuto e noto

No subconsciente de uma musa
Na película de um filme
Ouvi um poema todo
Numa obstinada paixão por ser e aparecer

Friday, October 03, 2003

art/poi


Arteriorrafia, arteriorragia, arteriosclerose
Arteriosclerótico, arteriotomia, arterite

Arte
Liberal, mecânica, bela

Poeirinha, poeira, poejo
Poema
Poente, poer, poesia
Poeta

De água doce

Há quanto tempo não sentia
O cheiro saboroso do dicionário
Abrupta despedida


"Ali ficou a dormir o sofredor e divino Ulisses/ Vencido pelo sono e pelo cansaço"
Homero, Odisseia, Canto VI

Quando o senhor se for
Que não se perca o clamor
Que não se perca tempo
Com epitáfios e elegias

Quando o senhor se for
Abrupto como chegou
Vencido pelo sono e pelo cansaço
Que continue o sofredor e divino Ulisses

Todos vós
Na insensatez dos dias inquietos


Na insensatez dos dias inquietos
Prossigo
Alienado na narcolépsia das noites mal dormidas


A obcessão cíclica
No desejo do teu corpo
Acalmou

Flutuo agora
Numa planície de logro


No porvir dos dias medonhos
Recidivo
Preso no destino das paixões compulsivas

Tuesday, September 30, 2003

Viver e morrer


Viver não é isto
Um misto de mosto
E mar morto

Viver é voar
Velar a vida
E morrer

Sunday, September 28, 2003

Poema asséptico


Eu vou comprar um ramo de flores
Para escrever um poema morto

Talvez uma dúzia de rosas
Ou quem sabe
Um ramo de mimosas
Um lindo bouquet de cravos

Não!

Um arranjo de margaridas
São as tuas preferidas

Eu vou comprar uma jóia
Para escrever versos caros

Talvez uns brincos de prata
Ou quem sabe
Um anel de ametista
Um lindo par de brincos

Sim!

Um par de brincos lindo
De oiro e de corindo

Friday, September 26, 2003

Edema

Os pulmões encharcados
Sibilam num mar de fluidos

O peito fervilha
O coração galopa
A angústia mata
A dor é forte.

Rasga o peito

O corpo falece
Os olhos gritam

Mortos, agónicos.

A Morte Perto


Amálgama.
Sangue, Músculos, Tendões.
O Corpo Desfeito
A Carne Rasgada
O Peito Aberto
A Morte Perto.

Thursday, September 25, 2003

Ferida

O turbilhão de glóbulos
Espreme-se na dor dos tecidos

Atropela-se, esmaga-se, comprime-se

Jorra na ferida aberta
Esvai-se nos vasos dilacerados

O corpo fica seco de sangue
Inerte no chão húmido de sangue

Wednesday, September 24, 2003

Mutilo-me

“E Eu Desconfio, Até, De Um Aneurisma”
Cesário Verde


Mutilo-me na dilaceração da pele
Que me fáz afluir saliva
Encharco-me no gosto a fel
Que me alaga e a custo sorvo

Liberto o medo
Na aspersão doentia
No segredo
De um prazer obcessivo

Sunday, September 14, 2003

Escrevo o medo

Escrevo o medo
No receio de ser preso
Na patologia decadente do verso

Escrevo o medo
No receio da insanidade
Trespassar a alma aberta

Escrevo o medo
No receio de mostrar
O sentimento oculto

Escrevo o medo
No receio de querer
Revelar o que não existe

Não ser puro

Ser apenas muro

Saturday, September 13, 2003

A paz enfim

Sinto a paz enfim
Esteve sempre tão perto de mim
Ao alcance de uma tecla
Um enclave perdido
Que agora alcanço
Na paz e solidão
Da terra ardente
No segredo
Hermético da escrita
Secreta

Friday, September 05, 2003

Quase

Imagino o teu seio pequeno
Lembro-me do toque da pele das tuas pernas
Uma vez toquei-te nas costas
Senti o teu cabelo perfumado

Lembro-me bem do teu perfume
Do dia em que quase nos beijámos
Embriagados

Tuesday, September 02, 2003

Além


Solidão imensa da planície
Porque me deixas tão vago e triste?
Na tua imensidão não viste
Que me torno decadente espécie?

Restolho seco, pedra ardente
Porque me tolhes de mágoa a alma
Porque sequioso na eterna calma
Sorveste o meu amor distante

Perco-me no teu doce regato
Na tua represa de água serena
Afogo-me de lágrimas no teu regaço
No desejo da tua pele morena

Monday, September 01, 2003

Amor a soldo

O pénis húmido
Escorre o corrimento
Pútrido
O corpo exala
O ar fétido dos velhos
O ar prémorte
O sebo

A jovem virginal
Não nota o cheiro
Habitua-se ao hálito
Ofegante do desejo

Ninfeta de amor
A soldo

Friday, August 29, 2003

Fausto

No princípio era o Verbo
Espírito, Força, Acção

Aspirar a Fausto
E nem ser Wagner

No princípio era o fim
Contínuo de dor e sofrimento

Caos, Criação, Destruição

Uma noite de Sabbat
Uma Margarida perdida
Ser vegetal

Alivio-me no etéreo da alienação
Desperdiço a vida perdida há muito
Numa qualquer corbusier uterina
Que acolhe o meu corpo abandonado em luto

Entrego-me ao ócio do suicídio narcísico
Enquanto me masturbo no frémito vertiginoso do zapping

Ser vegetal
Alimentar-me apenas de espectro

Thursday, August 28, 2003

Tão lindo o casal de namorados

Tão lindo o casal de namorados
Ele um drogado os dois infectados
Conheceram-se num bairro degradado
Num ermo à sombra de um penedo
Ele inconsciente vomitado
Ela com o vestido rasgado
Drogaram-se abandonados
Com cavalos adulterados
Pediram esmola roubaram
Fujiram quase mataram

Tão lindo o casal de namorados
Amaram-se naquele instante
Num qualquer bosque distante
Não por sentimentos desejados
Mas pelo prazer dependente
Nuns carros abandonados

Tão lindo o casal de namorados
Conceberam em droga um filho não desejado
Um lindo menino de droga um acaso o destino violado
Tão lindo é o menino tão alvo e tão franzino
Um lindo menino infectado com o destino traçado

Tuesday, August 26, 2003

Hoje Sonhei Contigo

Hoje sonhei contigo

Tu estavas num canto

Bem distante eu
Ria, bebia, chorava

Quando a festa acabou
Embriagado, caminhei alegre
Levado pelo meu arcanjo

Era um jardim
Enorme, cercado

Acordei, virei-me no leito
E senti os teus braços
Dizerem-me és meu
Muro do meu jardim


Na vertigem da estrada sigo veloz
Sinto o torpor dos membros
A embriaguez dos olhos
As mazelas dum mal atroz
Na noite que cobre escura
O betume negro da morte
Sinto o ar gélido cortante
A solidão daquela hora
Infinito o tempo que voa
Fujo fugaz pelas luzes devassado
Surdo no silêncio que ecoa
Morro em medo
Perdido lânguido
Num caminho abandonado

Monday, August 25, 2003

A Sombra

A sombra
Semblante aberto
Mostra ao sol
Um fruto narciso
A mesquinhez humana

Albritsh, Werther; Nietsh

Enfim eu
Estoicismo?

Recidivo no suicídio
Estóico

Encarcero a paixão
Enquanto definho
Num ninho
De amor

Traição?
Não
Apenas dor

Sunday, August 24, 2003

Faustosos Sótãos

Kierkergaard, Kant, Camus
Faustosos sótãos
Sem respostas
O Padeiro

ontem

Sentado no portado
Da minha terra
Alva, pura
Sou feliz

hoje

O puro malte inebriou
As mágoas desconhecidas do fazedor de pão
Em espanto o povo descobriu
Sem qualquer razão ou compaixão
Um sofrimento
Um tormento
Um atrevimento
Afinal também pode ser feliz
Quem apenas faz e nada diz

amanhã

Deitado no sepulcro
Na minha morte
Negra, suja
Descubro que pouco disse
E nada fiz

Saturday, August 23, 2003

Livro das Emoções

Poema Único


Início

Escrevo apenas emoções
Fluídas
Como um rio que ao mar
Vai diluir a morte
Encadeada nos segredos dos pensamentos
Ter prazer, saciar-me
Na beleza da criação emotiva

(...)

Um rio não sabe o seu destino

Flui na inércia
Da multidão
Os átomos
Caminham em rebanhos
Nada interessa
Apenas seguir o caminho
Encontrar o fim
E continuar

Friday, August 22, 2003

Terra

A terra escorre
No intervalo dos dedos magros
Acolhe, recolhe, tolhe
A aridez argilosa
Da frigidez
Que se escapa
Incólume
No seio materno improvisado

As tuas pernas
Deixam espaço entre coxas
Túnel, mel
Pudera eu beijá-las
Rolar, roçar
Num qualquer chão
De pó
Unir-me a ti
Levantar a poeira
Quebrar a armadura
Ressequida, castradora

Thursday, August 21, 2003

Contraditórios

Nada mais me interessa
Só o amor e a mente
Contraditórios
Escravos subjugados
Num fiel viciado
Nada mais me move
Só a paixão e a razão
Distantes
Tolhidos na aniquilação mútua

Wednesday, August 20, 2003

Intermezzo

Não te consigo escrever
Poema final

Escrevo meios poemas
Dilemas
Meias palavras

Escrevo meias verdades
Saudades
Tantas mentiras
Sísifo feliz?

A insónia
Persegue-me, tolda-me
Apodera-se do meu viver
Preso na teia da paixão

O torpor
Instala-se, vicioso
Ciclo decadente
Derrocada d’alma
Fim premente

Tuesday, August 19, 2003

NEFILOSCÓPIO

Pudesse sempre ser criança
Olhar-te na esperança
De uma vida interrompida
Ver-te através das nuvens
Ver-te minha linda
Como sempre te vi
Sem amor culpado
Tão só a carícia e o beijo
O mútuo desejo

Verão 2003

Pobre máquina subtil
Televisão, portátil
Mero adereço de forma
Asfixia-me no estio doentio
Dum Verão
Lânguido, libidinoso

… Mais um…

Perco-me
Se perdido já não estou
Vicio-me
Como se viciado já não estivesse

… Morro …

Preso, perdido
Num qualquer pop-up
Porque desespero
Porque não apareces
Porque não desapareço
Porque não te desligo
Se me consumo
Horas a fio
Ligado, perdido
Numa rede sem fio
Onde só um fio se move

Monday, August 18, 2003

Musana

Ninfeta
Jovem eterna
Musana
O Absurdo

Momentos, tormentos
Desejo, carinho, inteligência
O amor contrariado
O amor eterno
A paixão sem luta
Utopia, bigamia

Transfiguração, Negação
Lotte, Ana, Musana
O racionalismo absurdo
O autodomínio castrador
A paixão sem luta
Vitória, derrota